Dos meus tempos de puto, das brincadeiras tecnologicamente atrasadas, sem playstations que obrigassem a puxar pelo intelecto (há quem o diga como se fosse verdade...), recordo as perseguições nas cowboiadas, onde os “artistas” corriam atrás dos “índios”, que os mais dotados de lábia até apelidavam de “peles vermelhas”, por força das legendas decoradas dos filmes de John Wayne ou, numa versão mais romântica, do Roy Rogers, o herói que entre esvaziar de um tambor e outro de balas certeiras, dedilhava na viola aos ouvidos das senhoritas em perigo, obviamente, entretanto, por ele salvas…
Por esses idos, aqueles poucos que preferiam fazer de “índios” – afinal, o artista, nos filmes, ganhava sempre… -, quando saltavam do esconderijo para mostrar o peito ao inimigo, gritavam “G e r ó n i m o”. Segundo as películas que o écran a preto e branco nos mostrava, "Gerónimo" era o nome de um chefe da tribo dos Apache. Era guerreiro sem medo, comandava a sua tribo contra os “caras-pálidas” que lhe queriam roubar o território.
No dia em que a lei nos permite exercer o voto que determinará o partido que formará o governo, apetece-me caminhar em direcção à urna como se me dirigisse a uma batalha nas pradarias americanas e assumir a mesma palavra de ordem que gritava ainda puto, com uma nuance foneticamente imperceptível: “Jerónimo”.
Sou daqueles que pensaram estar o PCP a suicidar-se quando decidiu que o sucessor de Carvalhas seria o tal de Jerónimo. Confesso que não o conhecia e, do que me disseram, projectei um ortodoxo, de cassete permanentemente online, incapaz de algo que fosse novo. Penitencio-me. Tudo o que li, ouvi e li nesta campanha que terminou fez-me perceber o erro de avaliação.
Jerónimo assumiu a “enormidade” de que Portugal não pode nem deve sair da União Europeia (embora, salientando, e bem, que é preciso mudar as políticas da UE); Jerónimo confessou que o PCP não soube lidar lá muito bem com a queda do império soviético e não gaguejou a afirmá-lo; Jerónimo disse que não usava gravata antes de ser secretário-geral e iria continuar sem a usar. Disseram-lhe, então, que um ministro teria que usar gravata e ele retorquiu: “Mas eu não quero ser ministro”; Jerónimo admite acordos com o PS para viabilizar um Governo, mas não quer tachos, nem para ele nem para os camaradas de partido…
Perante isto, como admitir que a solução única é uma maioria absoluta para o PS? Engano! Se lha derem, os tais do PS ficarão sem freio nos dentes e vai ser o maior forrodó da história da (não) governação portuguesa. O melhor é deixar que precisem de Jerónimo, porque assim Jerónimo poderá funcionar como uma espécie de grilo falante da consciência socialista. Quer-me parecer que será capaz de desempenhar o papel melhor do que ninguém!
Fernando Rogério